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Sandra Fayad Bsb
Proseando em Versos no Minhocário de Palavras
Textos
LOBEIRA - O FRUTO DO LOBO

(Do meu livro esgotado Animais que Plantam Gente -
págs 146/151. Saiba mais: https://www.recantodasletras.com.br/analise-de-obras/5284132

 
            Não é novidade que numerosas espécies da fauna e da flora brasileira estão ameaçadas de extinção, especialmente devido ao desmatamento irregular. Uma das espécies mais vulneráveis é a Solanum Lycocarpum, um arbusto que atinge até cinco metros de altura, floresce o ano todo e frutifica de março a julho.
            Objeto de discussões e polêmicas; caule ereto, contorcido, muito ramificado e repleto de espinhos; folhas grandes de cor verde clara acinzentada, espinhentas, sinuosas ou dentadas, a Solanum Lycocarpum nasce, vive e se reproduz preferencialmente em regiões do cerrado. Apresenta características tão bem definidas que eu diria serem até i n c o n f u n d í v e i s.
                        Ora bendita, ora maldita, objeto de lendas e histórias fantásticas, cientificamente a Solanum Lycocarpum foi enquadrada na família das Solanáceas, assim como o tomate, o jiló e a jurubeba.  Segundo uma das lendas, se alguém quiser saber quem é seu futuro par conjugal, deve cortar um fruto dessa árvore de uma só vez ao meio e visualizará no seu interior a primeira letra do nome do pretendente. Conta-se que uma freira viu o nome de seu namorado de infância. Para ninguém duvidar do resultado, foi batata! Passados alguns anos, eles se reencontraram e casaram.
Popularmente, é conhecida como maçã do cerrado - devido ao cheiro parecido com o da maçã - ou como jurubebão, berinjela do campo. Mas prevalece o mais famoso dos seus apelidos: LOBEIRA.
            Quem leu meu artigo sobre o Lobo-Guará, há de se lembrar que destaquei esse arbusto em sua dieta pela sua importância como vermífugo contra parasita renal. Lembrei que a dependência do animal em relação a esse fruto é questão de vida ou morte. Bem, daí vem o apelido: Fruta do Lobo ou LOBEIRA.
            Assim como o Lobo, a ela tem acesso também outros animais campestres, como por exemplo o gado. A esse, há quem diga que ela é um veneno tão ameaçador que os vaqueiros já sacrificaram milhares dessas árvores por ano, incluindo assim a espécie no rol das espécies ameaçadas de extinção.  
            Mas você deve estar se perguntando:
- Como é que um fruto pode ser vital para um animal de grande porte e mortal para outro, se ambos vivem na mesma região em que também é habitat natural desse alimento?
            Parte da explicação é atribuída à falta de informações técnicas e às lendas assustadoras passadas de boca em boca como são as da Mula-sem-cabeça e do Lobisomem, que ainda provocam medo nos criadores de gado. Há até os que a chamam de Planta Assassina. Ocorre que seu fruto maduro, de cheiro adocicado, possui um perfume tão forte, inebriante, sedutor que embriaga e atrai para si o gado. Arrebata manadas inteiras que pulam cercas de arame farpado, atravessam riachos, valas e quintais para saboreá-lo. Nessa empreitada se machucam, quebram patas e alguns até morrem nas desesperadas investidas para alcançá-lo.
Até aí são acidentes. O restante da explicação é que possuidora de mandíbulas fortes a rês ao encontrá-la- diferentemente do lobo – abocanha e degusta o fruto todo em grandes pedaços levando muitas vezes ao alojamento do tampo na boca de seu estômago, onde fecha-lhe a passagem para outros alimentos triturados. Como nada mais entra no estômago, o animal rumina, rumina... até amofinar, e acaba morrendo.
            Antigamente a falta de esclarecimentos levava os camponeses a acreditar que a causa mortis era o envenenamento do animal pela planta.
            Hoje já se sabe que deve ser evitada a delimitação de pastos para gado de corte ou leiteiro em locais onde houver Lobeira. Seus frutos podem e devem ser colhidos previamente, triturados, misturados ou não à ração, para servir de alimento para os animais, inclusive para o gado confinado. Há outros animais que a acolhem bem em sua alimentação como galinhas, pássaros e coelhos, que adoram sua polpa.
            Conseqüentemente como a área da cultura natural das Lobeiras já está desmatada por causa da má informação, o lobo entra também no rol das espécies em extinção, demonstrando uma dupla ação biodestruidora por parte do homem.
            - Será que é por isto que o Lobo acaba indo para o bosque para comer a vovozinha?
                        Os frutos dessa espécie são os maiores do gênero, chegando a medir 13 cm de diâmetro. [Têm sido empregados na culinária e na medicina doméstica há centenas de anos, para confecção de doces e geléias e tratamento do diabetes, estando registradas na literatura médico-botânica outras aplicações curativas, que são estudadas pelos cientistas, mas já se sabe com segurança que se trata de uma espécie medicinal promissora, principalmente nas áreas de antibióticos, anticoncepcionais e antiinflamatórios. Trabalhos e testes estão sendo desenvolvidos no Laboratório de Pesquisas e Ensino em Síntese Orgânica da Universidade de Brasília, onde descobriram fartos indícios da produção de esteroides, matéria-prima de diversos medicamentos responsável por considerável parcela no custo de fabricação dos remédios. Identificaram até mesmo a presença do elemento básico para a produção de esteroides, um dos insumos mais caros da indústria farmacêutica].
            Estudos pré-clínicos conduzidos na Escola Agrícola Luiz de Queiroz (USP-Piracicaba) em São Paulo, utilizando camundongos, mostraram a possibilidade de reativação das células do pâncreas previamente destruídas pela droga Aloxana.
            Nos últimos anos, pesquisas desenvolvidas por vários outros estudiosos têm confirmado que a planta é eficiente na restauração das ilhotas pancreáticas produtoras de insulina nos casos de diabetes e, conseqüentemente, no controle do nível glicêmico no sangue.
            E mais! Têm revelado que o polvilho da lobeira é capaz de reduzir sensivelmente a dependência de insulina após cerca de nove a dez meses de tratamento contínuo.
               Para o preparo do polvilho colhe-se a fruta verde, deixando-a de molho em água para fazer uma massa, da mesma maneira que é feito no preparo do polvilho de mandioca. Depois o pó é misturado com água para tratar gastrite, úlcera e outras doenças do sistema digestivo.
            Os índios preferem fazer dela um refogado enquanto ainda não está totalmente amadurecida, ou seja, de vez. Na culinária da cozinha do cerrado é usada para fazer doces, bombons, farelo para bolos, vitaminas, pães.
            Adicionalmente os pesquisadores afirmam sua eficácia na diminuição do nível de colesterol total e certa atividade lipotrópica, útil nos regimes de emagrecimento, por auxiliar no controle do apetite, trazendo maior moderação e satisfação alimentar.
            Enfim, eis a explicação para a elegância, agilidade e postura atlética do lobo-guará. Com 1, 80 m de comprimento pesa apenas cerca de 25 kg.
Sandra Fayad Bsb
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 13/12/2020
Alterado em 13/12/2020
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