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Sandra Fayad Bsb
Minhocário de Palavras
Textos
 O TATARAVÔ DOS MEUS NETOS

 
A Escola Estadual ABRAHÃO ANDRÉ, de ensino regular desde Pré-Escola ao Ensino Médio, que fica na Rua Ricardo Paranhos, nº  634, no Bairro Pio Gomes, em Catalão, foi fundada com o intuito de levar Boa Educação à comunidade prestando homenagem a um mascate analfabeto.
Mas quem foi esse cidadão?
Para começar, seu nome original não era exatamente esse, mas Abrahão Andraus, que na chegada ao Brasil proveniente da Síria, foi traduzido pelo serviço de imigração por Abrahão André.
Nasceu a 15 de maio de 1881 em uma pequena cidade chamada Safhita, ao norte da Síria. Seus pais Andraus e Sarah eram agricultores e viviam da plantação de oliveiras, de onde se colhem umas frutas - as olivas (ou azeitonas). Terceiro filho de seis irmãos, órfão de pai e mãe aos dez e aos doze anos de idade respectivamente, tornou-se arrimo de família e praticamente não freqüentou a escola em sua terra natal. Em 1907, já livre do compromisso de cuidar das duas únicas irmãs que haviam se casado, decidiu hipotecar a pequena propriedade que muito mal lhe dava o sustento e embarcou para a América em companhia de João e José, dois dos três irmãos.
Os patrícios sugeriram que fossem montar comércio no interior do Brasil, onde era mais fácil acumular fortuna. Assim veio parar em Catalão, onde iniciou suas novas atividades como mascate.
Para quem não sabe essa profissão praticamente extinta, é o nome de um Porto na Península Arábica, na Ásia. No Brasil a expressão passou a ser usada para designar o mercador ambulante, que percorre ruas e estradas a vender objetos manufaturados, como panos, jóias , etc. Essas mercadorias eram carregadas geralmente no lombo de um burro. Na história do Brasil, vocês hão de se lembrar também da Guerra dos Mascates, em 1710, quando os comerciantes brasileiros de Olinda (PE) se rebelaram contra o pagamento de impostos aos portugueses de Recife.
Voltando à história dos irmãos imigrantes, algum tempo depois os três decidiram montar seus próprios negócios. Abrahão, abriu uma lojinha onde se vendia de tudo: arreios, tecidos, materiais de construção, alimentos, retrós de linha, panelas, espelhos, etc.
Alguns anos depois, já tendo reunido uma boa poupança, retornou à Síria. Lá resgatou a propriedade hipotecada, transferindo-a ao seu irmão mais velho, e casou-se com uma mocinha de dezesseis anos chamada Harmi (Julieta), filha de um antigo vizinho.
O retorno a Catalão com a jovem esposa, trouxe-lhe novamente a sensação de estabilidade. A vinda dos filhos e a responsabilidade para prover a família das necessidades básicas, não o deixavam descansar; a única opção de trabalho – comerciante –não combinava com o excesso de generosidade, característica mais acentuada da sua forma de ver a vida em sociedade. Apiedava-se dos clientes com dificuldades financeiras e não lhes cobrava as dívidas. As contas com fornecedores se avolumavam. Enfim, os negócios não iam bem e Abrahão pensava que se houvesse estudado, tudo teria sido bem mais fácil.
Por esta razão, era rigoroso com os filhos, quando o assunto era Escola. Exigia e agia com pulso firme com quem não queria estudar. 
Os jovens, percebendo que a pobreza continuava a rondar o lar doce lar, procuravam, cada um a seu modo, desenvolver paralelamente algum trabalho que lhes rendesse pelo menos o sustento do dia-a-dia.
Quando o velho Abrahão partiu para sempre em 1951, cansado de sua árdua luta para sobreviver e honrar o compromisso assumido consigo mesmo de cuidar das irmãs, depois da esposa e dos descendentes, cada um dos seus filhos já estava trilhando o caminho que os levaria à estabilização financeira e à realização pessoal e profissional.

Sandra Fayad Bsb
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 21/10/2010
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