Essa cartnha é para você, minha cachorrinha suja, feia, mas amada. Eu acabara de chegar ao mundo e já estava fazendo amizade com quem de fato merecia. Dizem que os adultos devem prestar atenção às crianças para aprender com elas. Estou aqui, olhando-me sentada no chão da fazenda da minha avó Maria que (me contaram) era apaixonada por mim. Faço um esforço enorme para lembrar dela, mas não consigo trazê-la de volta. Foram só 2 anos e meio de um amor intenso.Nunca me contaram se essa foto foi tirada antes ou depois que ela se foi subitamente. Ou será que foi exatamente naquele dia? Usavam tirar foto das pessoas mortas dentro do caixão. Pode ser que tenham aproveitado a oportunidade. Será que eu me agarrava à você, cachorrinha, para adquirir forças ou me compensar de tão grande perda. enquanto os adultos velavam o corpo?Contam que minha avó Maria era linda, sorridente, comunicativa, valente. Ela montava cavalo e, depois que ficou viúva, usava um revólver calibri 32 dentro da camisa para se defender dos assédios e assaltantes. Às vezes me imagino na garupa dela com o cavalo trotando pelos pastos da fazenda. Noutras vezes eu choro de saudades. É uma saudade gigante do que a vida não deu ao seu lado. Essa lacuna nunca será preenchida.
Qual terá sido o tamanho da compensação que você, cachorrinha, me deu?
Bsb, 06/05/2024