Blog         Instagram   Facebook    Twitter   Youtube
https://www.instagram.com/minhocariodepalavras/
 
Sandra Fayad Bsb
Proseando em Versos no Minhocário de Palavras
Meu Diário
01/08/2013 20h25
Lendo e comentando "A Mulher que escreveu a Bíblia", de Moacyr Scliar

Minhas conclusões sobre o livro A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar.

Em primeiro lugar tenho a impressão que o autor se inspirou no incidente gerado pela declaração do deputado  Clodovil Hernandes, que acusou a deputada do PT, Cida Diogo, de ser feia. Em uma sessão de votação, Clodovil, como era conhecido, declarou: "Digamos que uma moça bonita se ofendesse porque ela pode se prostituir. Não é o seu caso. A senhora é uma mulher feia". O fato, que gerou uma série de desdobramentos na mídia, provocou discussões sobre a beleza feminina, lembrando a célebre frase de Vinicius de Moraes: “Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental”.

Moacyr Scliar começa a história com a antítese da afirmativa: “A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história”.

As citações bíblicas sobre os reinados de Davi e de seu filho Salomão, bem como as condições de vida dos súditos, as regras sociais e morais em vigor à época são expostas na obra com simplicidade, acrescentando ao leitor valiosas informações históricas e/ou mitológicas da cultura judaica. Outro aspecto que vale a pena ressaltar é a presença constante da sexualidade desde a infância até a fase senil, com as restrições impostas e os mecanismos utilizados para satisfazer essa necessidade básica, desde os mais rudimentares como pedra, cabra.

A feiura da personagem principal constitui uma barreira contornável pelo fato de a “Feia” ter aprendido a ler e escrever. Os acontecimentos relacionados ao pastorzinho, seu sonho de consumo sexual no primeiro momento e, ao que parece, no final, bem como a Salomão, seu esposo real, são costurados a partir da necessidade física e emocional de toda donzela: sexo, amor, carinho. No caso da “Feia”, essa necessidade parecia mais acentuada, justamente porque entravam outros componentes como ansiedade, medo de rejeição. Pareceu-me que o autor pouco entende da natureza feminina, pois atribuiu à personagem um comportamento em relação ao sexo típico de homens, ou seja, quase todas as suas ações e pensamentos são típicos da sexualidade masculina: importância exagerada, palavreado, agressividade. 

A Bíblia encomendada em pergaminho e tinta, fiscalizada, retificada pelos anciãos, especialmente por aquele que perseguia a moça, foi usada para caracterizar os métodos sutis e corruptos adotados no mundo da política, tornando-se uma obra submissa à vontade de alguns poucos interessados.

O autor chama a atenção do leitor para a importância da amizade, mostrando que a curta fase lúdica da 700ª esposa de Salomão, a Feia, ocorre justamente quando ela conhece Mikol, a concubina que desmistifica o vigor sexual do Rei, mostrando-lhe que ele era um homem como outro qualquer, com falhas, inseguranças e limitações. E, de fato, ela já não o via com os mesmos olhos de admiração, quando o desafiou e se impôs na defesa da amiga moribunda e quando partiu em sua defesa, quebrando protocolos.

A ameaça à integridade do rei, a destruição dos escritos e o julgamento do pastorzinho finalmente resulta na noite de núpcias tão sonhada e na libertação da personagem.

Sandra Fayad (29-07-2013)

 

 

Publicado por Sandra Fayad Bsb
em 01/08/2013 às 20h25
Copyright © 2013. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Site do Escritor criado por Recanto das Letras