Minhas conclusões sobre o livro A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar.
Em primeiro lugar tenho a impressão que o autor se inspirou no incidente gerado pela declaração do deputado Clodovil Hernandes, que acusou a deputada do PT, Cida Diogo, de ser feia. Em uma sessão de votação, Clodovil, como era conhecido, declarou: "Digamos que uma moça bonita se ofendesse porque ela pode se prostituir. Não é o seu caso. A senhora é uma mulher feia". O fato, que gerou uma série de desdobramentos na mídia, provocou discussões sobre a beleza feminina, lembrando a célebre frase de Vinicius de Moraes: “Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental”.
Moacyr Scliar começa a história com a antítese da afirmativa: “A feiura é fundamental, ao menos para o entendimento desta história”.
As citações bíblicas sobre os reinados de Davi e de seu filho Salomão, bem como as condições de vida dos súditos, as regras sociais e morais em vigor à época são expostas na obra com simplicidade, acrescentando ao leitor valiosas informações históricas e/ou mitológicas da cultura judaica. Outro aspecto que vale a pena ressaltar é a presença constante da sexualidade desde a infância até a fase senil, com as restrições impostas e os mecanismos utilizados para satisfazer essa necessidade básica, desde os mais rudimentares como pedra, cabra.
A feiura da personagem principal constitui uma barreira contornável pelo fato de a “Feia” ter aprendido a ler e escrever. Os acontecimentos relacionados ao pastorzinho, seu sonho de consumo sexual no primeiro momento e, ao que parece, no final, bem como a Salomão, seu esposo real, são costurados a partir da necessidade física e emocional de toda donzela: sexo, amor, carinho. No caso da “Feia”, essa necessidade parecia mais acentuada, justamente porque entravam outros componentes como ansiedade, medo de rejeição. Pareceu-me que o autor pouco entende da natureza feminina, pois atribuiu à personagem um comportamento em relação ao sexo típico de homens, ou seja, quase todas as suas ações e pensamentos são típicos da sexualidade masculina: importância exagerada, palavreado, agressividade.
A Bíblia encomendada em pergaminho e tinta, fiscalizada, retificada pelos anciãos, especialmente por aquele que perseguia a moça, foi usada para caracterizar os métodos sutis e corruptos adotados no mundo da política, tornando-se uma obra submissa à vontade de alguns poucos interessados.
O autor chama a atenção do leitor para a importância da amizade, mostrando que a curta fase lúdica da 700ª esposa de Salomão, a Feia, ocorre justamente quando ela conhece Mikol, a concubina que desmistifica o vigor sexual do Rei, mostrando-lhe que ele era um homem como outro qualquer, com falhas, inseguranças e limitações. E, de fato, ela já não o via com os mesmos olhos de admiração, quando o desafiou e se impôs na defesa da amiga moribunda e quando partiu em sua defesa, quebrando protocolos.
A ameaça à integridade do rei, a destruição dos escritos e o julgamento do pastorzinho finalmente resulta na noite de núpcias tão sonhada e na libertação da personagem.
Sandra Fayad (29-07-2013)
Mesmo que você não tenha facebook ou nao faça parte da minha lista de relacionamentos, pode ver as 40 fotos aqui:
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Amigos,
Estou participando de um Clube de leitura maravilhoso. Os demais participantes estão avaliando a conveniência de divulgarem suas conclusões sobre os livros que lemos. Eu já me decidi. Por ora, divulgo aqui as conclusões sobre "A divina Comédia" de Dante Alighieri. Certamente que seus comentários serão muito importante para enriquecer meu trabalho . Aguardo vocês. Obrigada
Seguem as conclusões:
A Divina Comédia, ou simplesmente “A Comédia”, é sem dúvida uma obra interessante do ponto de vista estrutural. A edição bilíngue , com tradução e notas de Italo Eugenio Mauro, apresenta rimas forçadas verso a verso em português, o que deve ter sido um trabalho árduo. Merece aplauso, embora haja crítica sobre a fidelidade ao texto original.
Quanto ao formato - 100 cantos e 14.233 versos em tercetos hendecassílabos (11sílabas), rimados de modo alternado e encadeado, é uma construção inteligente, porém muito “amarrada”, consequentemente exaustiva e enfadonha, por tratar-se de um poema extenso.
Com relação ao conteúdo, em linhas gerais, é uma obra autobiográfica de um intelectual idealista, visionário e frustrado, detentor de uma invejável capacidade imaginativa. Alijado da sociedade corrupta e politicamente desorganizada, que não pode modificar enquanto cidadão, colhe dali o acervo histórico e cultural para alinhavar seu poema. Vai buscar na realidade vivenciada, e passível de ser transformada pela doutrinação cristã, a matéria prima de sua obra. Vinga-se de cada um dos seus desafetos e tenta resgatar e fixar os valores em que acredita. Merece registro o fato de ter se apoiado nos princípios regados por sábios como Aristóteles, Ptolomeu, Platão e outros mais do que na fé cristã. Queria entender o Universo e acho que foi além dos conhecimentos científicos de sua época.
A leitura sobre a visão do inferno com seus círculos de sofrimentos progressivos foi difícil. Abstive-me de ler alguns versos muito fortes nos últimos cantos. Acho que Dante exagerou nas alegorias com fogo, afogamentos, decapitações, sangue. Mas deve ter se sentido redimido dos maus tratos por que passou enquanto cidadão, deixando também claro quais eram os valores morais que pretendia ressaltar.
Não concordo com o castigo pela ausência do batismo. É discriminação! O purgatório é um misto de céu, limbo e inferno. Como é que Catão é o porteiro do purgatório se cometeu suicídio por não suportar que a Roma republicana sucumbisse? Da mesma forma poderia ter sido mais justo com Virgílio, permitindo que ele saísse do Limbo e entrasse no Paraíso, como agradecimento por ter sido seu salvador e cicerone na pior fase da jornada. Era de se esperar que a visão do Paraíso e o encontro com Beatriz , a bem amada, e a purificação de Dante, em várias etapas, para permitir-lhe a aproximação com Deus fosse a parte lúdica e mais agradável da obra. Na peregrinação pelos astros, Dante foi um visionário de respeito. Ensaiou os princípios da Física Quântica, hoje tão em voga. Mas Dante não me convenceu que era inabalável a sua fé cristã. No Paraíso há uma confusão de astronomia com moral e fé. A despeito das alegorias, prevaleceu sua antiga bandeira de mudanças na ordem social e política vigente, com as quais não se conformava e os seus dois amores: Florença e Beatriz.
Penso que ouvi de Dante esta pergunta: “Quem és tu que queres julgar, / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas?”
Sandra Fayad
+11-06-2013
Aos que ainda não viram sobre o lançamento dos meus livros, aqui estão os convites para o lançamento de cada livro, lembrando que trata-se de evento único, ou seja, todos serão lançados no mesmo dia, horário e local: Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, me Brasília, às 20 h do dia 03/05/2013. Obrigada.