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Como morrem as democracias
Resenha crítica escrita por Murilo Moreira Veras sobre o livro " Como morrem as democracias", dos professores Steven Levitski & Daniel Ziblatt

COMO AS DEMOCRACIAS MORREM, OU, VIVAS,
PODEM SERVIR A TIRANIAS IDEOLÓGICAS

Murilo Moreira Veras

O livro COMO AS DEMOCRACIAS MORREM da dupla dinâmica Steven Levitski & Daniel Ziblatt invade de chofre nosso Clube do Livro e todos nós estamos encantados com as questões e reflexões dos dois artilheiros rancorosos contra Donald Trump, atual presidente dos States.
De minha parte, confesso que não tive tempo hábil para ler, deglutir e erigir uma crítica mais sofisticada e contenciosa da lufada enfadonha de críticas feitas ao sistema político americano, atual e de antanho. Inobstante, ousei colher algumas observações, tendo em vista mais meu senso crítico, como tenho sempre feito, ao longo de meus estudos, pesquisas e outros quejandos protoliterários e alguns resquícios auferidos em minhas peripécias pelo mundo da filosofia e cultura geral.
Digamos que me considere uma espécie de iconoclasta nesse minado terreno da crítica ideológica, tendo, por algum motivo e talvez por influência da instância capricorniana que me amplia ou me arrefece, sempre, o espírito.
Não vou seguir um roteiro propriamente crítico do livro desses dois combatentes, demasiada e acirradamente democráticos — para não dizer tão aferrados ao que poderia designá-los “democráticos acacianos”, aqueles que adoram atacar um fato, um conceito se refugiando no manto da discórdia, quando, na realidade, querem dizer outra coisa, evidenciar a contradita, geralmente odiosa.
Pelo que deslindo dos dados trazidos à nossa baila, a dupla dinâmica ataca diretamente a Donald Trump, inquinando-o de uma espécie de ditador disfarçado, com alguma semelhança a Hitler, Mussoline, Stalin ou Mao-Tse-Tung. Enquanto isso elogia o partido democrata americano, Hillary Clinton, Barack Obama e apela dizendo que Richard Nixon era autoritário, foi um dos colaboradores do enfraquecimento da democracia nos Estados Unidos, haja vista o escândalo Watergate, deflagrado graças a dois jornalistas do Washington Post — Robert Woodward & Carl Bernstein — os quais, pusera a nu as maledicências direitistas de Nixon e por isso empichado da Casa Branca. Vejam só, então a democracia veio a ser salva da tirania. Mutatis-mutandi, seria exatamente o caso atual do destemperado Trump, que vem fazendo arruaças, querendo por a mão de ferro nos vagidos ideológicos do Partido Democrata, de Jimmy Carter, Bill Clinton, Barack Obama, Hillary Clinton e outros fervorosos democratas, que se dizem ao lado dos pobres e oprimidos, em defesa da liberdade. É o que se deduz do retábulo à pag. 69, em que os autores recuperam uma fala de campanha do “famigerado e iracundo” Trump. Este que a dupla alcunha de monstro teria quebrado vergonhosamente todos os direitos constitucionais e normas democráticas. Trovejando como um déspota, esse verdadeiro drácula como afirmam constitui “o tipo de figura que assombrava Hamilton e outros fundadores quando eles criaram a Presidência americana.” — assegura a dupla crítica.
Entretanto, não vi a dupla catilinista fazer qualquer referência ao fato de que a economia, governada por esse troglodita, está a pleno vapor como nunca houve nos Estados Unidos! Não vem ao caso, evidente, pois do ponto de vista humanístico o acúmulo de riqueza de uma nação não significa melhoria, espiritualmente falando — nem só de pão vive o homem, mas que ajuda, ajuda...
Observemos um pouco as pesquisas instantâneas que fiz. Em artigo de 26.7.18, portanto bem recente, de Stefaan Verhust, no Boston Review, ele cita Melvin Rogers que disse: ...” a democracia está perdendo terreno” e continua o articulista, na citada revista: “... Mas aparentemente no Ocidente, cujas democracias são maduras... ainda não estão em grave perigo. Nesta visão, os relatos da morte das democracias americanas foram muito exagerados.”
Vê-se, assim — e nós concordamos, em parte pelo menos — que a dupla dos neo-catilinas foram além das sandálias. Exageraram em seus alfarrábios.
John Dewey em seu livro “Liberdade e Cultura” afirma: “O caminho democrático é muito difícil de ser levado. É o caminho que leva o maior fardo de responsabilidade sobre o maior número de seres humanos.” — concluiu.
Ora, pois, pois. Cá com meus botões, vem-me à baila. O livro da dupla esgotou a venda no Brasil exatamente no período da campanha e eleição de Jair Bolsonaro à Presidência. Será que o fato não tem alguma ligação — digamos, com certa afoiteza de minha parte — o Bolsonaro ser comparado com o Trump? Então, a esquerda caviar brasileiro se lavou, martelando em cima do suposto direitismo do candidato que se opunha tenazmente às diabruras do PT. Compraram o livro para comparar o famigerado Trump com o capitãol da reserva Bolsonaro, a ver se elegia o incompetente do Haddad, o pior prefeito até hoje da Capital Paulistana. São assim os componentes da trupe dos intelectuais que alardeiam desgraças, levantam suspeitas as mais negras, coniventes com a mídia do momento.
Não quero descrê das potencialidades intelectuais dos dois professores de Havard. Quem sou eu — um singelo crítico literário, repleto de literatices com alguma faceta filosófica. Mas se temos de opinar, que opinemos, livremente.
Recorro aos meus alfarrábios. Desde Platão e Aristóteles — ambos considerados os “inventores” da chamada democracia (do grego demo = povo e cracia = governo), que se debate o tema, nem sempre bem compreendido e às vezes até deturpado. À época da democracia ateniense (verdadeiramente fundada por Sólon e Clístenes), Atenas tinha cerca de 430.000 habitantes, mas só 60.000 gozavam das benesses da democracia. Sim, porque da democracia tão decantada pelos atenienses, ficavam de fora os escravos e as mulheres — sem falar nos estrangeiros, não considerados cidadãos gregos. Por outro lado, Platão, tanto ele quanto seu discípulo Aristóteles, criam que a democracia não era realmente o melhor regime, tanto que ambos a consideravam espécie de anarquia. Sabem por que? Porque era um regime que se desviava do ideal que para ambos era aquele governado por sábios. Platão mesmo teria dito que a democracia era o regime em que dominava os ignorantes e mal instruídos, cujas opiniões se opunham à dos sábios, competentes na arte de governar a polis. Eles achavam que não era o regime ideal, mas o melhor dos piores, que era a chamada tirania, em que manda o déspota. À época do Império Romano, os Senadores que eram eleitos não tinham a representação moderna, embora escolhidos, não eram coesos, viviam em conflitos e agiam como déspotas.
A democracia, como a conhecemos hoje, migrou dos gregos, em estado limitado, como vimos, e por caminhos inconsúteis, inspirou o ideal naturalista de Rousseau no século XVII, através de sua badalada obra pouco conhecida Contrato Social — onde decantava, alto e bom som, a participação de todos na elaboração das leis e os direitos igualitários, portanto, contra o despotismo monárquico, então vigente. Passou por Maquiavel, que dividiu os governos em monocráticos (os Principados) e policráticos (as Repúblicas), dormitou um pouco ante as reflexões filosóficas de Voltaire e Montesquieu, a florearem sobre os certos e os errados das Monarquias e das Repúblicas — até fincar os contrafortes da atual democracia moderna, com Noberto Bobbio ,Nicola Mateucci e outros.
Não sei se é malícia de nossa parte, mas por que estamos tão preocupados com a “morte da democracia”? Platão e Aristóteles inquinaram-na de uma degeneração, assim como o platonismo expulsou os poetas da sua República, por os considerarem loucos. Vejam só, agora mesmo a revista Veja, de 14.11.18 publica nas páginas amarelas entrevista com o cientista político americano James Miller, professor de ciências políticas na The New School, de Nova York, onde ele faz repetir frase dita oitenta anos atrás, bastante significativa, de Joseph Schumpeter (1883-1950), cientista político austríaco: “Na prática, a democracia pode ser tornar uma farsa em algumas sociedades liberais, por não representar os anseios do povo.”
Finalizando essas nossas insensíveis elucubrações a respeito do livro dos dois professores, ousamos chegar a algumas conclusões, não sei até onde são levianas ou possam ter algum cunho de verdade.
A democracia é um regime alternativo, que se apoia na força e comunhão de um povo, que se quer livre, mas, penso que deva ser assegurada em contrafortes seguros, pensada à razão e sob os auspícios da verdade e da comunhão de ideias — o grande perigo, acredito, é, como temos visto em nosso País, aproveitadores e menestréis da incoerência, utilizarem todos os instrumentos supostamente democráticos, inclusive o aparelhamento da justiça, para quererem implantar uma ideologia apócrifa, em forma de governo de salvação nacional, com base no qual ousaram pilhar os cofres da Nação, desqualificando o povo e, principalmente, denegrindo sua cultura baseada na ordem, no progresso, na fé e na esperança. Ademais, é preciso que cuidemos de nossa educação, pois povo inculto será sempre refém de falsas ideias, tornando-se, como de certo já fomos, massa de manobra de equilibristas políticos e filósofos de meia tigela. E também não nos descuremos jamais de que a democracia não depende de uma só pessoa, mas do esforço de todos nós, abraçando o livre arbítrio, o livre pensar.
Por fim, recordemos as arrebatadoras palavras de Santa Tereza de Lisieux, ao afirmar: “A alma que se eleva, eleva o mundo.”
Bsb, 19.11.18
Murilo Moreira Veras
Enviado por Sandra Fayad Bsb em 23/12/2018
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